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A JORNADA DA CONSCIÊNCIA NEGRA NO BRASIL: UM CONTÍNUO DE LUTAS

Séculos depois, o açoite é substituído pelo cassetete das batidas policiais que violenta os corpos de jovens pretos em centenas de zonas urbanas brasileiras.

Publicado: 20 Novembro, 2020 - 12h14 | Última modificação: 20 Novembro, 2020 - 12h28

Escrito por: SECRETARIA DE COMBATE AO RACISMO

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20 DE NOVEMBRO - DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA

Na árdua história da população afro-brasileira pouco espaço têm sido dedicado à importância das figuras heroicas que lutaram por valores tão caros a um sistema político-social democrático, como a liberdade, a livre expressão religiosa, e a auto organização comunitária.

 

Desde o início da violência colonial, o povo negro resiste à opressão que lhe fora infringida em sua existência enquanto seres humanos, maior exemplo disso remonta ainda aos anos de 1580, no importante Quilombo dos Palmares, território de liberdade para os negros escravizados entre as capitanias da Bahia e de Pernambuco. Ali, o povo negro, livre das correntes e açoites, redescobriram sua liberdade; ainda que desterritorializada de sua terra mãe, o continente africano. As heranças culturais de África eram exercidas com liberdade nesses espaços, longe da opressão católica, fazendo emergir em vários pontos do Brasil verdadeiros centros de autonomia e liberdade comunitário-religiosa.

 

Perseguidos de várias formas, os quilombos carregam uma história de dor e resistência marcada pelo brutal assassinato do seu principal expoente, Zumbi dos Palmares, em 1695. Palmares eternizou-se com seu legado de rebeldia e resistência para todo o povo negro, entretanto a sua história não desfruta do prestígio que lhe é devido, indício forte do epistemicidio histórico enfrentado pela historiografia negra no Brasil.

 

Séculos depois, o açoite é substituído pelo cassetete das batidas policiais que violenta os corpos de jovens pretos em centenas de zonas urbanas brasileiras, fato triste que nos mostra o quanto a herança racista escravocrata ainda se faz presente entre nós. A ciência de triste realidade torna inadmissíveis quaisquer argumentos que tentam transferir a discussão de uma consciência negra para o tom neutro e racista da nomenclatura “consciência humana”, ignorante quanto aos problemas que a separação racial opera em cada espaço social no Brasil, seja ele público ou privado.

 

Quando a história é insuficiente para conscientizar, faz-se preciso apontar seus impactos no presente, este mesmo entendido como reflexo das barbáries de um tempo cujas máculas multiplicaram-se, nesse sentido, qual o papel das esferas educacionais e de movimentos importantes como a articulação sindical rumo à superação de estruturas de pensamento racistas?

 

Desde a criação da efeméride em 2003, o Mês da Consciência Negra e em especial o seu dia, 20 de novembro, vêm construindo ambientes de amplo debate na sociedade através de articulações nos espaços públicos e privados, nas ruas escolas e universidades no sentido de mostrar à população brasileira, não uma data histórica mitologizante, mas as origens de suas maiores contradições, a exemplo das desigualdades sociais que atingem negativa e majoritariamente a população negra, (herança de uma abolição mal feita) da violência estatal nas favelas, do preconceito velado no dia a dia para com crianças e mulheres negras, dentre muitas outras vergonhas que a nação finge silenciosamente não perceber.

 

Nesse enredo de entraves físicos, políticos e pedagógicos, cabe a cada setor uma articulação específica. O que podem, por exemplo, as unidades do SUS realizar em termos de atividades para a conscientização acerca de como o racismo atinge o povo negro em sua saúde? Manifestando-se contra o tratamento desumano por parte de uma classe médica elitista destinado à gestante negra hospitais afora é apenas um dos vários exemplos possíveis. Ou ainda, como as centrais sindicais podem levar esse debate para as suas pastas e secretarias? Perguntando e mostrando, por exemplo, como o racismo estrutural articula as relações de trabalho e atravessam diversas questões de gênero e classe.

 

Perante a trajetória imensa de luta e honra do povo afro-brasileiro, somente nos resta a obrigação moral da denúncia seguida pela tomada de consciência, essa sim capaz de transformar as percepções e ações racistas que nos assola enquanto indivíduos e sociedade.

 

 

Gilene Pinheiro
Secretaria de Combate ao Racismo da CUT Bahia