Estudo aponta que maioria dos 34 milhões de trabalhadores com jornadas acima de 40 horas é formada por mulheres e população negra
A luta histórica da classe trabalhadora pela redução da jornada sem redução de salários ganha reforço técnico. Levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) confirma que mulheres e pessoas negras serão as principais beneficiadas com o fim da jornada 6x1 no Brasil.
Atualmente, cerca de 34 milhões de trabalhadores e trabalhadoras cumprem jornadas superiores a 40 horas semanais. Segundo o estudo, há uma presença desproporcional da população negra e das mulheres nesse contingente, revelando como a superexploração da força de trabalho tem recorte de raça e gênero.
“Na média geral, 77% dos trabalhadores têm jornadas acima de 40 horas semanais, quando olhamos especificamente para os trabalhadores negros, essa porcentagem chega a 86%. Então, realmente existe uma participação desproporcional do trabalhador negro nas jornadas acima de 40 horas”, afirmou o pesquisador Felipe Volpo, em entrevista à CUT Bahia.
No caso das mulheres, o cenário combina dupla penalização: longas jornadas e baixos salários.
“Temos uma prevalência maior de mulheres em jornadas estendidas e em contratos de até dois salários mínimos. Então, as mulheres são especialmente submetidas a jornadas mais longas, nas funções de menor remuneração, acumulando desvantagens.”
Redução da jornada não gera desemprego
O estudo do IPEA também desmonta um dos principais argumentos do setor empresarial contrário à medida: o de que a redução da jornada provocaria desemprego ou queda na produção.
“Esse aumento do custo do trabalho está em linha com outros reajustes já enfrentados pela economia brasileira, especialmente a partir da política de valorização real do salário mínimo. A política já operou com aumentos superiores a 7,5% do salário mínimo sem gerar desemprego ou redução da produção. Consideramos essa comparação válida porque até 90% dos trabalhadores com jornada acima de 40 horas semanais têm contratos na faixa de até dois salários mínimos. Nossa estimativa é que, se o salário mínimo foi bem absorvido sem gerar desemprego, uma redução da jornada também tem capacidade de absorção.”
Volpo também destaca o cenário favorável do mercado de trabalho.
“O mercado de trabalho brasileiro está com taxas de desemprego muito baixas, o que indica capacidade de absorção de melhorias nas condições de trabalho. Muitas redes, especialmente do setor de supermercados e hipermercados, já estão mudando espontaneamente suas escalas para atrair trabalhadores.”
Mais tempo de vida, menos adoecimento
Além do impacto econômico positivo, o estudo aponta ganhos concretos na qualidade de vida da classe trabalhadora.
“O principal impacto direto é o aumento da qualidade de vida das pessoas. Se reduzirmos o trabalho aos fins de semana, isso permite mais tempo com a família, mais cuidado na educação dos filhos, tempo para o autodesenvolvimento e investimento em qualificação. Além disso, tende a reduzir problemas de saúde, o que pode ser benéfico inclusive para as próprias empresas.”
A CUT Bahia reafirma que a luta pelo fim da jornada 6x1 não é apenas uma pauta trabalhista, é uma agenda de justiça social, de enfrentamento ao racismo estrutural e de promoção da igualdade de gênero. Reduzir a jornada é distribuir melhor o tempo, a renda e a dignidade.